A implantação do sistema de transbordo de resíduos sólidos em Manhuaçu, que resultou na interrupção do descarte no antigo lixão do município, alterou a rotina de catadores que utilizavam o local como principal fonte de renda. Com a mudança, trabalhadores relatam que ficaram impossibilitados de exercer a atividade de catação.
Segundo os catadores, a retirada dos resíduos ocorreu sem aviso prévio direto ao grupo, o que causou paralisação imediata do trabalho. Milton Soares, catador que atua no local, afirmou que a medida foi recebida com surpresa. “Sabíamos que ia acabar um dia, mas não teve planejamento com a gente. Não teve reunião, não teve conversa. Simplesmente chegaram e falaram que acabou. Aqui tem mais de 40 famílias que dependem disso”, disse. Ele relatou que, desde o início da interrupção, os trabalhadores não conseguiram gerar renda. “Ontem não trabalhamos, hoje não trabalhamos. As contas continuam chegando: água, luz, aluguel, pensão. A gente precisa de trabalho.” Ainda segundo Milton, houve oferta de cestas básicas por parte da assistência social, mas os catadores afirmam que a principal demanda é a garantia de atividade laboral. “Não queremos cesta básica. Queremos emprego, queremos trabalhar.”
Outro trabalhador, Cleiton Eloi, também relatou dificuldades após a interrupção do descarte. “Tem muita família, todo mundo tem filho, conta pra pagar. Eu tenho três filhos. Ficar desempregado assim é complicado”, afirmou. Ele disse que a situação gerou revolta entre os trabalhadores. “Nunca fechou desse jeito. Da hora pra outra chegaram sem falar nada.”
José Jorge de Oliveira, de 62 anos, afirmou que iniciou recentemente o trabalho no local e ainda não conseguiu renda neste mês. “Não ganhei nenhum centavo ainda. Ninguém avisou nada. Ontem ficou todo mundo perdido, tentando resolver as coisas”, relatou. Segundo ele, a principal expectativa do grupo é por uma definição sobre alternativas de sustento. “Cesta básica não resolve. Tem água, luz, remédio. A gente quer trabalhar.”
Atuação da assistência social
A Secretaria Municipal de Assistência Social informou que acompanha os catadores desde 2023, quando teve início o processo de fechamento do lixão. De acordo a coordenadora do CRAS Jordana Luiza Andrade, foi realizado o cadastramento dos trabalhadores para identificação do perfil social e econômico. Segundo a equipe técnica, cerca de 136 pessoas foram cadastradas à época, incluindo catadores do lixão e trabalhadores que atuavam nas ruas. O trabalho incluiu atendimento do Cadastro Único, inclusão em benefícios sociais conforme critérios e acompanhamento social.
Jordana Andrade informou ainda que foi apoiada a criação de uma associação de catadores e disponibilizado um galpão para funcionamento da coleta seletiva, embora parte dos trabalhadores não tenha aderido ao modelo. Com a interrupção definitiva do descarte, o município informou que pretende realizar novo cadastramento das famílias para atualização das informações e avaliação de acesso a programas sociais.
Posição do município
O município informou que a desativação do lixão ocorre em cumprimento a uma ação judicial iniciada em 2014 e às normas ambientais vigentes. A medida prevê o encaminhamento dos resíduos produzidos em Manhuaçu para um aterro sanitário licenciado, localizado no município de Piedade de Ponte Nova. De acordo com o subprocurador do município, Tiago Assad, a administração vinha adotando medidas graduais desde 2021 para viabilizar a mudança. “Existe uma ação judicial que exige a desativação do lixão. O município buscou implementar essa transição de forma planejada, com investimentos ambientais, sociais e econômicos”, afirmou.
O município também informou que mantém acompanhamento social dos catadores e que estuda alternativas de reinserção no mercado de trabalho e capacitação profissional.
Danilo Alves – Tribuna do Leste



