
O Dia Nacional do Rádio é comemorado oficialmente em 25 de setembro. Em um cenário de mudanças nas formas de produção, distribuição e consumo de conteúdo, a rádio mantém a relação com as comunidades onde está inserida e amplia sua presença por meio das plataformas digitais.
Para a jornalista e doutora em Linguística Aplicada Nair Prata Moreira Martins, professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), a proximidade é uma das características que definem a rádio local.
“A palavra mais importante para a rádio local é a proximidade”, afirma. Segundo ela, a emissora conhece o território onde está inserida e acompanha acontecimentos que fazem parte da rotina da população. “No interior, a rádio não funciona apenas como um veículo que transmite informação, mas faz parte da própria vida da cidade”, diz.
Essa relação aparece na cobertura de festas tradicionais, campanhas de solidariedade, atividades do comércio e entrevistas com pessoas da comunidade. Para Nair, esse contato também cria um sentimento de pertencimento, já que o conteúdo está relacionado ao lugar onde o ouvinte vive.
As mudanças tecnológicas alteraram a forma de distribuição dos conteúdos, mas não eliminaram essa característica. “As novas tecnologias não vieram eliminar esta relação; pelo contrário, quando uma rádio local utiliza adequa damente as novas plataformas, consegue ampliar ainda mais essa proximidade”, afirma.
Rádio além do aparelho
A transformação do rádio também envolve a forma como o público participa da programação. Para Nair Prata, a rádio deixou de estar ligada apenas ao aparelho receptor tradicional e passou a ocupar diferentes plataformas.
“Hoje, uma emissora pode ser ouvida através do computador, de aplicações e das plataformas digitais”, explica. Ela ressalta, porém, que a mudança não significa apenas disponibilizar o mesmo conteúdo em diferentes canais.
“As plataformas modificam a linguagem, a relação com o público e a forma de produção de conteúdos”, afirma.
Na rádio tradicional, segundo a pesquisadora, a comunicação era marcada pela transmissão da emissora para o ouvinte. Com as plataformas digitais, essa relação passou a incluir comentários, compartilhamentos, envio de áudios, participação em sondagens e sugestões de pautas.
“O ouvinte pode comentar, partilhar, enviar áudios pelo WhatsApp, participar em sondagens, sugerir pautas e produzir conteúdos que integram a programação”, diz.
Confiança e apuração
Em meio ao aumento da circulação de informações nas plataformas digitais, a credibilidade do jornalismo também aparece como uma questão para as emissoras locais.
Nair afirma que a confiança é construída no trabalho diário das rádios e que a proximidade com os acontecimentos permite às emissoras acompanhar os fatos, buscar informações e ouvir diferentes fontes.
“Num ambiente digital onde qualquer pessoa pode produzir e partilhar informações, o papel do jornalismo profissional torna-se ainda mais essencial”, afirma.
A proximidade com a comunidade, segundo ela, não elimina os critérios jornalísticos. “Ser próximo da comunidade não significa abandonar os critérios jornalísticos”, destaca.
Entre os procedimentos citados estão a apuração, a verificação das informações, o cruzamento de fontes, a identificação da origem dos dados e a correção de erros.
“A credibilidade também exige transparência para que o ouvinte saiba exatamente o que foi confirmado e o que ainda está a ser apurado”, afirma.
Inteligência artificial no rádio
Outra transformação em curso é a utilização da inteligência artificial. A tecnologia foi tema do Dia Mundial do Rádio celebrado pela UNESCO em 2026, segundo Nair, que também participa de um artigo sobre o assunto, em coautoria com outros dois professores, com publicação prevista para outubro.
Para a pesquisadora, a inteligência artificial pode ser utilizada em tarefas como transcrição de entrevistas, organização de dados, pesquisas iniciais, preparação de pautas e edição.
Ao mesmo tempo, ela afirma que a tecnologia não substitui as decisões editoriais nem o trabalho de apuração. “A tecnologia não pode substituir a responsabilidade editorial de quem faz a rádio”, diz.
Nair também destaca a necessidade de manter a análise humana durante o uso dessas ferramentas. A proposta, segundo ela, é utilizar a inteligência artificial sem comprometer a confiança e a relação entre a emissora e a comunidade.
O futuro da rádio
A rádio deve continuar presente em diferentes plataformas e dispositivos, incluindo carros conectados e aplicações. Também tende a ampliar a relação com podcasts, vídeos e redes sociais.
Apesar das mudanças, Nair afirma que alguns aspectos permanecem ligados à identidade do meio. Entre eles estão a relação com o ouvinte, a cobertura do cotidiano e a prestação de serviço.
“A evolução deste meio não consiste em escolher entre o velho e o novo, mas sim na preservação da sua essência enquanto descobre novas formas de existir”, afirma.
Para ela, a capacidade de adaptação acompanha a história do rádio. “A rádio tem um histórico comprovado de adaptação que lhe permite sobreviver e reinventar-se”, diz. E conclui: “continuará a ser rádio desde que continue a informar, a acompanhar as pessoas e a criar laços”.
Leonardo Medeiros – Tribuna do Leste



